O dia D
E aí o casal foi jantar. Dois velhinhos, aposentados da nação, que trabalharam a vida inteira em prol da comunidade coordenando as ações sociais realizadas pelo Banco do Brasil. Ele com 75 anos, ela pouco mais de 70 (eu jamais perguntaria a idade de uma dama). Foram ao restaurante mais chique da cidade – era uma ocasião especial.
O senhor vestiu sua melhor camisa, e sobre esta uma casaca de pelica trazida da Holanda por dois amigos homossexuais que lá foram passar as férias. Na cabeça um chapéu estilo velho oeste, feito de couro de vaca e com as abas dobradas para cima. Era uma ocasião especial.
Ela, a moça, se adornou como quem vai num casamento: vestido longo, azul claro, contornado por uma echarpe de seda italiana da melhor qualidade. Usou seu perfume francês, presente da neta, e um colar de pérolas que ganhou do pai quando casou. Era uma ocasião especial.
Faziam isso todos os meses, uma vez por mês. Cancelavam compromissos, punham as melhores roupas e saíam como um casal de namorados. Ele pegava o carro e guiava até o melhor restaurante da cidade. Pediam os melhores pratos, um vinho cabernet sauvignon e até sobremesa (torta de nozes com licor). Feito isso, saíam apressados rumo ao melhor motel da região.
Era sempre a única vez no mês que o casal transava. Já não eram mais jovens, o fôlego tinha-se ido, e precisavam disso para manter a chama da paixão. Era o dia que o velho tomava um comprimido de Viagra.
Mas desta vez foi diferente. Na saída da cidade, rumo ao motel classificado com cinco coelhinhos, encontraram uma blitz. O guarda os mandou parar e pediu ao motorista que saísse do veículo. Disse O senhor está bêbado, não está? E o velho respondeu Não senhor. Tirando do bolso uma sacolinha transparente, o guarda falou É isto que vamos ver, e ordenou que o velho fizesse o teste do bafômetro.
Formado advogado que era, o velho usou de seus direitos como cidadão e se negou a produzir provas contra sua pessoa. Então foi levado a delegacia. Ao pedir explicações, ouviu do subcomandante do BPTran, major Sidnei Michelowski, que A fiscalização será intensa, e quem se recusar a fazer o teste será levado à delegacia.
Naquele dia não transaram. O velho teve de pagar dois mil reais de fiança e voltar para casa de taxi, sem sua carteira de motorista. Aliás, ainda sobre os efeitos do Viagra.
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